Arquivo | outubro, 2010

“Eu sei, mas não devia”

25 out

”Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.”

TEXTO: MARINA COLASANTI

Prêmio CNT

19 out

Há dois post atrás falei sobre o trabalho A Rota da Emergência, uma matéria especial feita para o JC Online que deu um trabalhão danado, mas que foi super prazeroso de fazer, de ver o resultado final! Uma verdadeira conquista!

Pois bem, agora esta matéria foi escolhida como uma das cinco finalistas do Prêmio CNT, um dos mais conceituados do país!

Saiu uma notinha no Jornal do Commercio:

PRÊMIO CNT

O JC Online tem quatro trabalhos na final do prêmio da Confederação Nacional de Transporte (CNT): Ameaça no ônibus. É dia de futebol, de Isabelle Figueirôa, Wladmir Paulino, Marcelo Cavalcante e Breno Pires (design Silvia Morais), A rota da emergência, de Mellyna Reis e Mariana Mazza (design Erika Simona), O transporte do futuro, de Roberta Soares (design Silvia Morais), e A revolução das bicicletas, de Julliana de Melo (design Sidclei Sobral). A TV Jornal também chegou à final, com a matéria De carona no Agreste, de Jonnath Silva Monteiro.”

E também foi divulgada uma matéria no JC Online.

Agora é só ficar na torcida pelo resultado final…

Momento musical: No Recreio

12 out

Sério! Desde que meu MP4 quebrou e que só tenho o celular pra ouvir música no caminho do ônibus, tenho ouvido muito rádios, principalmente a Nova Brasil FM. Adoro a programação, dá pra relembrar cada música das antigas! Essa semana ouvi uma que é massa: No Recreio, que é de autoria de Nando Reis (o cara como compositor se garante!), mas na voz de Cássia Eller que eu adoro!!!

Quando você começa a parar para ouvir a letra da música, é realmente apaixonante, uma verdadeira declaração de amor!

Vamos então a letra da música que é linda!!!

NO RECREIO – CÁSSIA ELLER (NANDO REIS)

Quer saber quando te olhei na piscina
Se apoiando com as mãos na borda
Fervendo a água que não era tão fria
E um azulejo se partiu porque a porta
Do nosso amor estava se abrindo
E os pés que irão por esse caminho
Vão terminar no altar
Eu só queria me casar
Com alguém igual a você
E alguém igual não há de ter
Então quero mudar de lugar
Eu quero estar no lugar
Da sala pra te receber
Na cor do esmalte que você vai escolher
Só para as unhas pintar
Quando é que você vai sacar
Que o vão que fazem suas mãos
É só porque você não está comigo
Só é possível te amar…

Seus pés se espalham em fivelas e sandália
E o chão se abre por dois sorrisos
Virão guiando o seu corpo que é praia
De um escândalo, charme macio
Que o cor terá se derreter?
Que som os lábios vão morder?
Vem me ensinar a falar
Vem me ensinar ter você
Na minha boca agora mora o teu nome
É a vista que os meus olhos querem ter
Sem precisar procurar
Nem descansar e adormecer

Não quero acreditar que vou gastar desse modo a vida
Olhar pro céu só ver janela e cortina
No meu coração fiz um lar
O meu coração é o teu lar
E de que que adianta tanta mobília
Se você não está comigo
Só é possível te amar
Ouve os sinos, amor
Só é possível te amar
Escorre aos litros, o amor

PRA ASSISTIR

O clip da música é uma fofura, todo feito com imagens caseiras de Cássia Eller, a maioria com o filho dela. Sério, parece uma despedida… Lindo!!!

A Rota da Emergência

11 out

Com um pouco de atraso, mas ainda em tempo, escrevo esse post pra falar de um trabalho diferente que fiz nesses últimos tempos.

Quando minha amiga Mell me convidou para participar de um especial jornalístico sobre o transporte de passageiros do interior para a capital, nem pestanejei!

Na hora lembrei de quantas vezes, na parada de ônibus logo cedo, indo para a Rádio Jornal, não vi ônibus lotados passando com doentes do interior que vinham buscar tratamento nos hospitais aqui de Recife. Essa cena sempre me incomodou. Idosos, doentes, crianças, todos tendo o seu direito à saúde desrespeitado, precisando viajar vários quilômetros, saindo de madrugada de casa só porque onde moram não tem estrutura para atender seus pacientes.

Então quando surgiu a oportunidade de fazer A ROTA DA EMERGÊNCIA, nem pensei duas vezes, topei na hora! Ainda por cima era um desafio para mim, como jornalista, fazer um trabalho com tal intensidade, em um veículo que eu ainda tinha pouco domínio.

Mesmo com todas as dificuldades (máquina que travou e perdeu fotos e vídeos, duas pessoas que desistiram do projeto, falta de tempo, cansaço), não desistimos! O resultado? Acesse e confira!