O dia em que eu não consegui chegar em casa…

18 jun

FOTO: Helia Scheppa/JC

Tudo começou após a hora do almoço. Fortes chuvas, trovões e relâmpagos já anunciavam que a volta para a casa seria longa. Não tanto quanto eu poderia imaginar.

Larguei mais cedo do trabalho e tentei pegar um ônibus para evitar a caminhada de cerca de 15 minutos na chuva até o local onde pego o transporte para vir pra casa. Não deu certo. O motorista me alertou que há mais de meia hora não conseguia sair daquele local. Decidi encarar a chuva mesmo sabendo que meu frágil guarda-chuva pouco evitaria que eu ficasse encharcada.

Chegando ao ponto do ônibus, completamente molhada da cintura pra baixo (e em boas partes da cintura pra cima), consegui rapidamente subir no ônibus com destino a minha casa. Apesar do abafado do veículo (que contrastava gritantemente com o frio que fazia do lado de fora) e de ter que ir em pé, segurando as minhas bolsas, agradeci por estar a caminho de casa. Mal sabia o que me esperava.

A certa altura da Avenida Caxangá, o trânsito que estava lento ficou completamente parado! O desespero começou a bater quando o motorista desligou o motor do ônibus. Já fazia mais de uma hora que eu estava naquele veículo e ainda não tinha chegado a metade do caminho. E o pior: sem perspectiva de passar da outra metade nem tão cedo.

A bolsa pesada começou a doer o ombro e fiquei me perguntando: onde estava a solidariedade do brasileiro que eu citara a dois posts atrás? Lembrei que em dia de chuva ela deveria ter sido arrastada pela correnteza das águas. Ninguém sensibilizado para segurar minhas bolsas. Aliás, ninguém sensibilizado com nada. Ao contrário. A revolta começou a tomar conta dos passageiros que começaram a xingar o motorista pela demora e o calor, mesmo sem ele ter culpa por nenhum do dois.

A agonia aumentou. O calor também. Um passageiro mal educado acende um cigarro e as pessoas no ônibus começam a se manifestar. Há discussões, caras feias. Mais xingamentos para o motorista. O fumante sem-noção queria que ele saísse da fila de ônibus e tentasse seguir pela faixa de carros. Como? A fila de carros também não andava!

De repente a pressão foi tão grande que o cobrador estourou. Começou a gritar para que as pessoas parassem de fazer ameaças, pois o motorista estava apenas fazendo a parte dele. Não havia o que fazer.

Lembrei do filme “Ensaio Sobre a Cegueira”. Como o bicho homem fica tão mais próximo do bicho que do homem em uma situação dessas!

As pessoas começaram a descer do coletivo e ir andando para suas casas. Tive vontade de fazer o mesmo, mas avaliei que a distância associada à chuva, ao fato de ter que passar por áreas totalmente alagadas e o medo me impediram de fazer o mesmo. Chegaria em casa nem que demorasse mais umas duas horas. Nessas alturas, já se passavam quase duas que eu estava naquele ônibus.

Na hora em que o circo começava a pegar fogo no ônibus, surge uma luz no fim do túnel: meu pai, meu heroi!

Meu pai, que mora próximo de onde eu estava, me liga e se oferece para ir me buscar e me levar para a casa dele. O meu medo era que o carro dele ficasse ilhado em algum ponto de alagamento, mas a fome, o cansaço e a falta de perspectiva de chegar em casa me fizeram aceitar a ideia com muito carinho.

Depois de conseguirmos ultrapassar verdadeiros rios (inclusive dentro do condomínio dele, onde a água entrou até no elevador), finalmente chegamos, duas horas e meia depois de iniciada a minha saga. Eu estava encharcada, faminta, estressada, cansada, assustada.

Depois de dois bons banhos, um de água e outro de álcool, pra desinfetar, e de uma boa refeição, eu já estava quase nova. Dali a algumas horas, a chuva cessa e tento chegar em casa, novamente sem sucesso. Mesmo sendo quase 23 horas, a Avenida Caxangá continuava engarrafada da mesma forma. Decido voltar e dormir na casa do meu pai.

Nessa quinta-feira chuvosa em Recife, não consegui chegar em casa. Mas tive cama, comida, conforto. E nesse tempo todo não consegui parar de pensar: e quem não tem nem casa para voltar? E quem vive em locais de riscos e estar na rua é mais seguro que estar em casa?

No dia seguinte, os jornais me dão a triste confirmação: nove pessoas morreram em deslizamento por conta das chuvas. Inevitável pensar: não seria bom se elas também não tivessem conseguido chegar em casa?

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